terça-feira, 8 de maio de 2007

Aula 3: O inimitável filosofar de Sócrates

Curso Básico de Filosofia
Centro de Estudo em Filosofia Americana – CEFA

2. O inimitável filosofar de Sócrates
2.1 Introdução
Boa parte de sua vida filosófica, Platão gastou dando combate aos sofistas, tentando mostrar que Sócrates não era só diferente deles, mas superior. Então, entrar na casa de Platão é compartilhar dos seus ataques em relação aos sofistas? Na sua sala de jantar teremos de, enfim, aceitar a idéia de que o sofista é o anti-filósofo par excellence? Não necessariamente. Platão não foi nenhum inconseqüente ao argumentar contra os sofistas. Caso eles não fossem importantes, Platão não lhes teria dado atenção. Sem os sofistas, haveria filosofia, do modo que a conhecemos hoje? É difícil dizer sim. De certa maneira, os sofistas foram a baliza para Platão filosofar para além do que Sócrates havia feito. E muito do que Platão produziu, e que deu o contorno para a filosofia, inclusive como a conhecemos hoje, foi devido a seu trabalho tenaz e inteligente sobre o que Sócrates disse e o que Sócrates poderia ter dito – e não disse – contra os sofistas.

A palavra “sofistas”, do grego sophistēs, foi utilizada no século V a. C. para nomear a profissão de pessoas que viajam pelo mundo grego e, tendo algumas habilidades especiais – conhecimento de poesia, música e mesmo, em alguns casos, da arte de previsões e premonições –, eram pagos para dar ensinamentos a jovens. Eles atuaram em diversas frentes. Houve casos de sofistas que tiveram algo que poderia ser chamado de clínica psiquiátrica, e deram ajuda a pessoas que precisavam desse serviço. Mas, enfim, eram professores, e alguns deles eram muito bem pagos. No florescimento da democracia, sob o governo de Péricles, se tornaram bem conhecidos. Atuaram como mestres dos que pensavam em entrar para a política, uma vez que, em geral, a maior parte dos sofistas possuía erudição e eram habilidosos na retórica. A retórica era um instrumento central naqueles tempos, os de uma Atenas que vivia seus caminhos, em grande parte, por decisões na agora, decisões tomadas a partir do que os grandes oradores ali podiam desenvolver. Certamente, os sofistas eram também filósofos, vários deles, é provável, tiveram contato direto com a filosofia de pré-socráticos importantes.

O tempo foi cruel com as obras dos sofistas. O destino premiou Platão de um modo saboroso ao ter permitido a ele caracterizar seus inimigos para a posteridade. Muito do que temos dos sofistas foi escrito por Platão, em obras que, inclusive, ganharam títulos com nomes de sofistas. E as obras de Platão, pelo que sabemos, foram preservadas em sua maior parte, talvez a totalidade. Platão foi extremamente incomodado pelo pensamento dos sofistas. Em seus diálogos, não raro, ele colocou Sócrates dando boas estocadas em sofistas famosos. Todavia, o relato de tais estocadas não ocorreu por divertimento, e sim por missão filosófica. Pois a argumentação dos sofistas poderia ser tomada como sendo a de Sócrates. Platão parece ter temido isso como ninguém. Ele teve o cuidado de escrever seus diálogos mostrando que Sócrates – aos menos o seu Sócrates – tinha um método inigualável. A semelhança do filosofar de Sócrates com o procedimento dos sofistas estava em alguns aspectos formais. Sócrates usava do elenkhos, ou seja, a refutação, e os sofistas faziam algo semelhante, e que não era um procedimento de argumentação desconhecido no mundo grego. Ao contrário, teve lá sua popularidade entre os intelectuais. A idéia básica era extrair concordância do interlocutor para dois enunciados e, em seguida, mostrar que eles eram contraditórios, e então levar o interlocutor à confusão. Pela descrição de Platão e Aristóteles, o centro do método dos sofistas era o de levar adiante um tipo conversação que, na terminologia de Platão, em seu livro Sofista, era a erística, uma palavra que no grego arcaico diz respeito à disputa, luta, contenda. O que um sofista ensinava a seu aluno, segundo Platão, era um modo de trabalho com a “anti-lógica”: fazer brotar a contradição entre frases, mas o propósito da erística seria o de assim agir para vencer o debate, não para encontrar a verdade. Platão insistiu na tecla de que Sócrates fazia diferente.

Platão tinha uma consciência aguçada do que era fazer filosofia. Assim, sua intuição a respeito do que importava e não importava na filosofia e no debate que poderia se seguir a ele é deslumbrante para nós, seus leitores atuais. Sua escola de filosofia, a Academia, após sua morte seguiu por rumos que abrigaram, entre outros, pensadores que se denominaram de céticos. A palavra vem de skeptikoi, e que quer dizer “investigador”, “examinador”, isto é, aquele que está inclinado a manter uma perquirição sobre as coisas. Dentro da Academia, foram filósofos que tenderam a valorizar os diálogos socráticos mais pelo seu final aporético, em que as respostas às perguntas iniciais não apareciam, do que por qualquer outra virtude que pudesse ter.
[1] Uma vez no interior da Academia, nem sempre o ceticismo foi radical, ou seja, o da negação de que possa haver algo de certamente conhecido. Todavia, sendo ou não radical, é verdadeiro que alguns argumentos dos céticos tiveram inspiração na sofística. Assim, olhando posteriormente, é possível entender bem o quanto Platão percebeu que deveria filosofar, após a morte de Sócrates, no sentido de colocar na boca de seu mestre, ao menos a partir de determinado momento dos diálogos, um Sócrates reeducado pelo platonismo. Platão lutou como um leão para que Sócrates não ficasse para a história como quem não teve fundamentos em seu filosofar, alguém que poderia ter sido, também, um sofista. E, podemos arriscar dizer, esse trabalho de Platão não foi só para beneficiar Sócrates, mas para responder ao seu próprio desejo de ver, realmente, se a investigação de Sócrates poderia conduzir a respostas, a definições, e não somente ao fim aporético, o do impasse.

Dois sofistas imortalizados por Platão em seus escritos foram Górgias (nascimento em 480 a.C.)
[2], da cidade de Leontini na Sicília, e Protágoras (485-415 a.C), da cidade de Abdera. Eles foram advogados de teses filosóficas que incomodaram sobremaneira Platão.

Havia razões de sobra para Platão ficar incomodado com os sofistas tanto quanto ainda há para os filósofos atuais, mesmo para aqueles que gostam deles. Por exemplo, o que Górgias escreveu é, até hoje, uma pedra no sapato de muitos filósofos:
1) “nada há”;
2) “se houvesse algo, ninguém poderia sabê-lo”;
3) “se alguém soubesse, não poderia comunicá-lo”.
Protágoras, por sua vez, não deixou por menos. Sua célebre frase
“O homem é a medida de todas as coisas”
também se tornou um espinho para o platonismo tradicional, que advogou a possibilidade de termos uma medida além da do homem enquanto indivíduo comum, a respeito de enunciados, teorias sobre o mundo e regras morais.
Essas teses incomodavam e ainda hoje criam problemas, pois elas são perfeitamente inteligíveis, sedutoras e, no entanto, nos soam como auto-refutáveis ou como contradições. Às vezes, queremos aceitá-las. Por exemplo, a tese protagoriana nos parece ideal quando desejamos defender o pluralismo de visões de grupos ou indivíduos. Todavia, em relação a muitas desses enunciados dos sofistas, nossa reação é estranha. Nós pronunciamos frases como a de Protágoras, por exemplo, e acreditamos que estamos corretos, mas logo em seguida elas nos parecem ...sofismas! Ou seja, elas nos parecem aquilo que a filosofia de Platão e Aristóteles caracterizaram como fruto de um discurso sem rigor, enganoso, meramente retórico – trabalho dos sofistas. De fato: obra dos sofistas.

O Protágoras mostra o debate entre Sócrates e Protágoras a partir da questão “a virtude pode ser ensinada?”. Protágoras afirma que ensina as pessoas a se tornarem melhores. Uma vez tendo aprendido tal ciência, que ele denomina como “a arte da prudência”, elas estariam aptas a governar o lar e a cidade. Sócrates discorda, dizendo que a virtude política não é um saber transmissível na forma que Protágoras advoga, isto é, como uma técnica. Sócrates não perde a oportunidade, então, de lançar sua pergunta característica, a pergunta de tipo “o que é F?”. Sim: “o que é a virtude?” O debate se desenvolve e, ao final, Sócrates conduz a si mesmo e a Protágoras para a conclusão de que a virtude pode ser ensinada na forma de ensinamento geral, a partir da “ciência das medidas”, em que é possível fazer a distinção clara entre o bem e o mal. Assim, segundo Sócrates, quando se erra moralmente, quando se peca, isso é devido à falta de ciência, de conhecimento. A virtude para Sócrates, então, pode sim ser ensinada, mas não na forma de técnica, como queria Protágoras. O debate termina com Sócrates podendo mostrar sua posição a Protágoras, mas nenhum deles chega a uma resposta ao que é cobrado por Sócrates, ou seja, o de alcançar a definição de virtude, o que seria a essência única da virtude.

No Górgias o tema central é a retórica. Sócrates não deixa de fustigar os interlocutores ao não se contentar com explicações pontuais. Ele quer saber “o que é a retórica”, não com exemplos do que o retórico faz, mas com uma definição da "natureza da retórica". No esforço de responder a isso, Górgias explica que o conhecimento do justo e do injusto é apenas um meio utilizado pelo retórico, e que este (ou seu discípulo) pode saber do justo e do injusto sem ter de se comprometer com isso. Sócrates objeta que não é possível conhecer o que é justo sem o querer, sem o desejar. No decorrer do debate, em que outras figuras se envolvem, Sócrates defende a sua tese de que é pior cometer a injustiça do que sofrer injustiça. O pior dos males é ser injusto e não ser punido por isso. Assim, a retórica, se tivesse algum uso válido dentro dessa regra, seria o de vir diante de um juiz e falar contra si mesmo, de modo a ser punido.

Esses dois diálogos, entre outros, deixam ver que Sócrates fazia afirmações peremptórias sobre o que acreditava, sobre o que “sabia”. Aliás, uma dessas afirmações, a de que é preferível sofrer injustiça que cometê-la, estava em desacordo com o pensamento grego comum. A outra, a de que pecamos por ignorância, fez parte da doutrina de Sócrates que os historiadores denominaram de “intelectualismo socrático”, isto é, a doutrina de que a ackrasia – a fraqueza da vontade – não existe; o “agente acrático”, o que tem a vontade fraca (o que não tem “força de vontade”, não se autodetermina), não é encontrável. Pois, na verdade, todos que escolhem o errado, que é o que lhes prejudica, o fazem por não saberem completa e verdadeiramente que o que escolheram os prejudica. Assim, um dos problemas que a filosofia de Sócrates trouxe aos filósofos e historiadores da filosofia posteriores foi o de que essa sua postura, a de fazer afirmações proferindo conhecimentos, contrastava com aquilo que ele, em seu julgamento, afirmou. Em seu julgamento ele disse considerar-se não sábio, e que ele apenas poderia ser considerado mais sábio que outros atenienses por causa de que ele sabia que não sabia, enquanto os que ele interrogou não sabiam do que estavam falando e, no entanto, continuavam falando. Essa afirmação de Sócrates, que depois, por comentadores, foi transformada no dístico “só sei que nada sei”, poderia mesmo ter sido uma afirmação coerente? Isso não estaria sendo desmentido com o que Sócrates afirmou e mostrou nos debates, uma vez que nesses ele, não raro, afirma posições e mostra que elas são, para ele, um “conhecimento”? Ou era isso que alguns scholars chamaram de ironia, ou seja, a forma de Sócrates, no diálogo, às vezes se mostrar como quem queria se tornar discípulo do interlocutor? Na trilha de entender essas questões, podemos avaliar o maravilhoso percurso filosófico – e pessoal – de Sócrates, o homem que traçou os vários dos cômodos da casa de Platão.

[1] Sobre os céticos e a Academia: Frede, M. The sceptics. In: Furley, D. (org.) From Aristotle to Augustine. Routledge History of Philosophy. New York, 2004, pp. 253-86, vol. II.

[2] Como no caso dos pré-socráticos, também os sofistas tem as datas de nascimento e morte determinadas por meio de estimativas e inferências. Portanto, devemos tomar essas datas como contendo variações de autor para autor.

[vídeo de apoio:Sócrates, Platão e Aristóteles]






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