Casa de Platão: Curso de Filosofia Básica Especial
O que faz o filósofo? O filósofo, o cientista e o teólogo são pessoas cujo trabalho intelectual é bem diferente de outros trabalhos que também exigem disposição e tirocínio mentais, mas que são mais comumente conhecidos. Em nossa sociedade o trabalho do romancista ou do advogado ou do professor universitário (de ciências humanas) ou do diretor de cinema são mais comuns do que o do filósofo. O que os que são chamados de “os pensadores” fazem de especial que os torna diferentes?
Pensadores? Sim, não raro, chamamos o filósofo, o cientista e o teólogo de "pensadores". No que eles se empenham?
O cientista e o teólogo são dois tipos de intelectuais que, ao lado do filósofo, formam o trio que cuida de assuntos gerais da sociedade, diferentemente de outros diversos profissionais que também não são "trabalhadores manuais", como o médico, o engenheiro, o advogado, o fisioterapeuta, o padre, o bancário e assim por diante. Estes, por sua vez, são os que cuidam de aspectos particulares da nossa vida social e de parte de nossa vida individual e particular. Isto é, perguntamos ao médico, por exemplo, a respeito de algum problema de saúde, particular, e esperamos que ele saiba dizer algo sobre isso para guiar o nosso tratamento. Não queremos saber sua opinião sobre a ciência médica em geral ou, por exemplo, se a engenharia genética poderá realmente encontrar a cura para tudo que ela promete curar. Todavia, se fazemos a ele este último tipo de pergunta, então já não estamos mais em uma consulta médica, estamos entrevistando o médico enquanto um cientista do campo médico. De modo semelhante, procuramos o padre e pedimos um conselho, e esperamos que ele possa ser alguém de bom senso, capaz de dar uma resposta útil. Não queremos saber dele se o que temos de fazer, uma vez “aprovado por Deus”, como ele poderá dizer, pode ou não ferir outras medidas também “aprovadas por Deus”. Mas se fazemos uma pergunta como esta, de caráter geral – sobre o que Deus quer, segundo uma dada (a nossa) religião – já não estamos mais considerando o padre simplesmente como o nosso pároco, estamos querendo que ele atue como teólogo. Procuramos no cientista e no teólogo – ou em professores que atuam como tais – respostas para as chamadas “grandes questões”. O que são elas? São questões que antes de nos afetar individualmente afetam – ou acreditamos que afetam – todo um grupo ou mesmo toda a humanidade.
Mas e o filósofo? No que ele se diferencia desses dois outros intelectuais, o cientista e o teólogo? Em princípio, o filósofo teria de ser alguém muito mais liberto de dogmas ou de posições acríticas do que o cientista e o teólogo. Como assim? O que é que faz o filósofo que o torna distinto do cientista e do teólogo?
Podemos conversar horas com um professor de filosofia sobre como estudar filosofia ou sobre o que o filósofo Jean Paul Sartre escreveu ou sobre como que a “filosofia analítica” é diferente da “filosofia continental” e assim por diante. Isso não quer dizer que estamos conversando com um filósofo de um modo filosófico. O filósofo pode nos ajudar em questões desse tipo, atuando como professor de filosofia ou como um homem de cultura geral. Todavia, se queremos ter com ele uma conversa autenticamente filosófica, se queremos ver o filósofo filosofar, o procedimento é outro – bem outro: não escaparemos de ter de nos entregar, nós mesmos, à filosofia; acabaremos por filosofar com ele. Enfim: teremos de filosofar.
A filosofia é como uma jovem pudica; ela raramente se deixa assistir em seus momentos íntimos. Ela, para ser vista, requisita o engajamento. Uma jovem pudica não se deixa ver no banho ou na troca de roupas a não ser por quem se comprometeu com ela. Assim é a filosofia. Ele exige amizade em relação ao saber - comprometimento. Caso se torne um “amigo do saber”, então, poderá entrar na morada da filosofia. Não é possível vê-la em ação, realmente, sem participar de sua missão e seus afazeres. Mas, se para ver a filosofia funcionar precisamos filosofar, vamos filosofar como? A respeito do quê? Ora, tanto a respeito das questões particulares que levamos ao médico e ao padre quanto a respeito das questões gerais que encaminhamos ao cientista e ao teólogo. O filósofo não é como eles, que gosta de respostas somente. O filósofo agarra tanto suas respostas quanto as perguntas. Em todos os casos, o filósofo lança um olhar diferente, inédito, inusitado sobre tais questões – perguntas e respostas em conjunto – e, mais ainda, sobre as situações que as envolvem. Ele reconsidera as questões de uma forma que elas não haviam sido pensadas. Como faz isso? Mágica? Mais inteligência que outros? Nada disso. Apenas diferença no olhar, pois ele amplia o quadro no qual as questões estão situadas. Ele olha tudo com mais ingenuidade que outros, de modo a ver aquilo que, talvez, fosse mais notado pelas crianças e, quem sabe, pelos loucos. Todavia, ele não faz o papel de criança e nem de louco. Caso suas questões pareçam idiossincráticas, é porque os que o rodeiam não estão mais acostumados com o olhar ingênuo. Ele busca os traços mais ordinários das situações envolvidas nas perguntas. Ele debruça sobre o que não desperta a curiosidade; é ali que lança dúvidas e perguntas. No limite, ele transforma as perguntas, até então postas para a situação como as únicas possíveis ou única importantes. Modifica as perguntas por causa de que nota não o que é considerado importante e não o que é bastante observado nas questões e nas situações que as envolvem, mas agarra, sim, o que é corriqueiro e, de tão corriqueiro, aquilo que parece não merecer qualquer pergunta – o banal. Na medida em que ele faz o banal aparecer, ele inicia a operação de retirar o banal da sua condição de banalidade; ele desbanaliza o banal. A filosofia, então, como atividade do filósofo autêntico, é a desbanalização do banal.
Um exemplo deixa claro essa nossa noção geral – e inicialmente grosseira – sobre o que é a filosofia.
Imagine um filósofo em uma clínica médica. Ele entra ali para perguntar ao médico sobre sintomas ruins que está sofrendo e, no meio da conversa, isto é, no decorrer da consulta, ele pode começar um bate-papo e perguntar ao médico o que ele pensa sobre um possível fim de determinadas doenças. Até aí, nada de diferente de qualquer outro paciente com alguma cultura. Mas o filósofo autêntico nunca deixa de ser filósofo. Então, enquanto ele está fazendo essas perguntas e a consulta está ocorrendo, ele já abandonou o médico como médico ou como cientista da medicina, e começa a averiguar o que é o mais banal e corriqueiro naquela atividade, ali dentro da clínica. Ele não faz isso intencionalmente. Querendo ou não, se ele é filósofo, a filosofia começa a agir e ele até esquece de suas dores; ele se pega observando o modo pelo qual o médico faz perguntas, ou seja, que tipo de inquérito ele faz. Sem se dar conta, ele já lançou olhares sobre os gestos do médico, sua roupa, sua forma de se dirigir ao paciente e à secretária, como organizou o seu consultório, que tipo de material tem na mesa, se colocou ou não diplomas na parede e como dispôs os seus livros e que tipo de livros estão ali. Aos poucos, a ciência médica brota ali na sala e usa da boca do médico para se apropriar do ambiente e vazar por todos os lados, agarrando o paciente. Ele, o filósofo que entrou ali como paciente, não consegue não notar como é o funcionamento daquilo que ninguém iria achar interessante de investigar, ou seja, o mais banal: o discurso médico, o que o médico fala nas entrelinhas que, às vezes, é o que está claro nas próprias linhas. O que é a ciência falando ali, na boca do médico e por meio daquela boca? Junto com essa pergunta, uma dezena de outras fervilham seu cérebro: que tipo de saber é aquele e qual espécie de poder reina ali? Como que o discurso médico e o discurso da ciência doutrinam os corpos? Qual a razão daquela roupa branca? Por que há uma mesa entre o médico e o paciente? Ao agir assim, o filósofo já está envolvido com a observação da linguagem médica, ele já está dando importância para o que ninguém dá importância exatamente por ser o mais banal, o corriqueiro. A consulta termina. Ele pega a receita e paga a secretária do médico. O médico chama outro paciente, e considera que a consulta anterior acabou e que tudo foi bem, que conversou com um paciente culto. Mas não foi só isso que ocorreu ali na clínica. Talvez ele, o médico, nunca venha a saber que dali saiu um filósofo, e que a filosofia, em um certo sentido, se efetivou naquele seu consultório. Ele jamais saberá que tudo ali que é o corriqueiro, o banal, perdeu a sua banalidade naqueles minutos que o paciente filósofo esteve ali, e que a filosofia reinou em seu local de trabalho, documentando tudo. Toda a banalidade desapareceu enquanto a filosofia lá esteve. Mais tarde, em seu gabinete, o filósofo pode retomar a cena e então aprimorar seu pensamento sobre a captura que fez do discurso do doutor e da prática médica. A própria ciência médica fica disposta, então, para a análise. Pode começar a escrever filosoficamente sobre tudo isso. Pois enquanto esteve no consultório como paciente e se deitou para ser examinado, estava ao mesmo tempo examinando a própria medicina – talvez a única realmente doente ali na clínica (ou não?).
Haveria outro modo do filósofo atuar, nas mesmas condições? Sim! Caso o médico não fosse alguém imerso em seu mundinho, e aceitasse pensar filosoficamente com o filósofo, poderia, no momento da consulta, ser examinado pelo filósofo. Tudo aquilo que o filósofo, em silêncio, observou sobre o discurso e a prática do médico, poderia ser motivo para um diálogo de tipo socrático entre ambos. Escrever, então, seria uma opção (a mais) do filósofo. Mas uma primeira parte do trabalho já estaria feita. A filosofia teria ocorrido ali, como uma forma também de ampliar a consciência do médico a respeito daquilo que jamais havia pensado sobre seu discurso médico. E certamente isso muniria o filósofo de uma visão ainda mais acurada a respeito das hipóteses que levantou sobre o que até então era o mais banal de tudo, o discurso médico. É claro que essa segunda situação é mais difícil hoje em dia. Mas pessoas filosoficamente curiosas e intelectual e moralmente corajosas concordariam em passar por experiências desse tipo. Poucas se dariam esse presente, o de se entregar à ingenuidade filosófica. Todavia, não duvido que elas ainda existam, escondidas aqui e ali.
Nos dois casos – filosofando às escondidas ou filosofando em diálogo socrático –, a diferença entre o filósofo e seus outros dois colegas preocupados com assuntos gerais, é fácil de ver: o teólogo e o cientista respondem a questões que “realmente importam”, enquanto que o filósofo parece responder a perguntas que não importam. É claro que aqueles que forem ganhos por ele, e então enxergarem o banal como não mais banal, irão se importar daí em diante com aquilo que não importava. Todavia, há uma sutileza na forma como o que é corriqueiro e banal ganha importância na filosofia. E é nisso que a filosofia difere de todas as outras atividades intelectuais. É o modo pelo qual o banal se desbanaliza que marca a filosofia. O banal desbanalizado pela filosofia não pode nunca mais voltar à condição de banal. A filosofia, na sua ingenuidade de olhar o corriqueiro, parece lançar o objeto olhado para uma condição acima daquela observada pelos não-ingênuos. Todavia, quando esse mesmo objeto, uma vez desbanalizado pela filosofia, é tocado pela ciência e pela teologia, ele readquire a condição de banal. Pois a ciência e a teologia recolocam as coisas no lugar. Elas são conservadoras por natureza, mesmo quando parecem revolucionárias. Elas reordenam tudo para que tudo ganhe uma utilidade comum. Para explicar isso, nada melhor do que duas tiras da Mafalda, do cartunista argentino Quino.
Mafalda age como uma criança curiosa. Portanto, não raro, como filósofa. Todavia, se mantém como criança – sem perder a ingenuidade, a condição do filosofar. Ela adora fazer perguntas sobre coisas banais; isto é, coisas e situações que são vistas como aquilo a respeito do que não devemos nos preocupar, pois, como muitas pessoas comentam “desde que o mundo é mundo é assim mesmo”. Todavia, o filósofo é aquele que não se deixa levar facilmente pelo convite à passividade por uma frase do tipo “ah, é assim mesmo”. O filósofo é aquele que ouve o “é assim mesmo” e, em seguida, já começa a pensar que talvez seja o caso de perguntar “deve ser assim mesmo, deve?”.
O cientista e o teólogo são dois tipos de intelectuais que, ao lado do filósofo, formam o trio que cuida de assuntos gerais da sociedade, diferentemente de outros diversos profissionais que também não são "trabalhadores manuais", como o médico, o engenheiro, o advogado, o fisioterapeuta, o padre, o bancário e assim por diante. Estes, por sua vez, são os que cuidam de aspectos particulares da nossa vida social e de parte de nossa vida individual e particular. Isto é, perguntamos ao médico, por exemplo, a respeito de algum problema de saúde, particular, e esperamos que ele saiba dizer algo sobre isso para guiar o nosso tratamento. Não queremos saber sua opinião sobre a ciência médica em geral ou, por exemplo, se a engenharia genética poderá realmente encontrar a cura para tudo que ela promete curar. Todavia, se fazemos a ele este último tipo de pergunta, então já não estamos mais em uma consulta médica, estamos entrevistando o médico enquanto um cientista do campo médico. De modo semelhante, procuramos o padre e pedimos um conselho, e esperamos que ele possa ser alguém de bom senso, capaz de dar uma resposta útil. Não queremos saber dele se o que temos de fazer, uma vez “aprovado por Deus”, como ele poderá dizer, pode ou não ferir outras medidas também “aprovadas por Deus”. Mas se fazemos uma pergunta como esta, de caráter geral – sobre o que Deus quer, segundo uma dada (a nossa) religião – já não estamos mais considerando o padre simplesmente como o nosso pároco, estamos querendo que ele atue como teólogo. Procuramos no cientista e no teólogo – ou em professores que atuam como tais – respostas para as chamadas “grandes questões”. O que são elas? São questões que antes de nos afetar individualmente afetam – ou acreditamos que afetam – todo um grupo ou mesmo toda a humanidade.
Mas e o filósofo? No que ele se diferencia desses dois outros intelectuais, o cientista e o teólogo? Em princípio, o filósofo teria de ser alguém muito mais liberto de dogmas ou de posições acríticas do que o cientista e o teólogo. Como assim? O que é que faz o filósofo que o torna distinto do cientista e do teólogo?
Podemos conversar horas com um professor de filosofia sobre como estudar filosofia ou sobre o que o filósofo Jean Paul Sartre escreveu ou sobre como que a “filosofia analítica” é diferente da “filosofia continental” e assim por diante. Isso não quer dizer que estamos conversando com um filósofo de um modo filosófico. O filósofo pode nos ajudar em questões desse tipo, atuando como professor de filosofia ou como um homem de cultura geral. Todavia, se queremos ter com ele uma conversa autenticamente filosófica, se queremos ver o filósofo filosofar, o procedimento é outro – bem outro: não escaparemos de ter de nos entregar, nós mesmos, à filosofia; acabaremos por filosofar com ele. Enfim: teremos de filosofar.
A filosofia é como uma jovem pudica; ela raramente se deixa assistir em seus momentos íntimos. Ela, para ser vista, requisita o engajamento. Uma jovem pudica não se deixa ver no banho ou na troca de roupas a não ser por quem se comprometeu com ela. Assim é a filosofia. Ele exige amizade em relação ao saber - comprometimento. Caso se torne um “amigo do saber”, então, poderá entrar na morada da filosofia. Não é possível vê-la em ação, realmente, sem participar de sua missão e seus afazeres. Mas, se para ver a filosofia funcionar precisamos filosofar, vamos filosofar como? A respeito do quê? Ora, tanto a respeito das questões particulares que levamos ao médico e ao padre quanto a respeito das questões gerais que encaminhamos ao cientista e ao teólogo. O filósofo não é como eles, que gosta de respostas somente. O filósofo agarra tanto suas respostas quanto as perguntas. Em todos os casos, o filósofo lança um olhar diferente, inédito, inusitado sobre tais questões – perguntas e respostas em conjunto – e, mais ainda, sobre as situações que as envolvem. Ele reconsidera as questões de uma forma que elas não haviam sido pensadas. Como faz isso? Mágica? Mais inteligência que outros? Nada disso. Apenas diferença no olhar, pois ele amplia o quadro no qual as questões estão situadas. Ele olha tudo com mais ingenuidade que outros, de modo a ver aquilo que, talvez, fosse mais notado pelas crianças e, quem sabe, pelos loucos. Todavia, ele não faz o papel de criança e nem de louco. Caso suas questões pareçam idiossincráticas, é porque os que o rodeiam não estão mais acostumados com o olhar ingênuo. Ele busca os traços mais ordinários das situações envolvidas nas perguntas. Ele debruça sobre o que não desperta a curiosidade; é ali que lança dúvidas e perguntas. No limite, ele transforma as perguntas, até então postas para a situação como as únicas possíveis ou única importantes. Modifica as perguntas por causa de que nota não o que é considerado importante e não o que é bastante observado nas questões e nas situações que as envolvem, mas agarra, sim, o que é corriqueiro e, de tão corriqueiro, aquilo que parece não merecer qualquer pergunta – o banal. Na medida em que ele faz o banal aparecer, ele inicia a operação de retirar o banal da sua condição de banalidade; ele desbanaliza o banal. A filosofia, então, como atividade do filósofo autêntico, é a desbanalização do banal.
Um exemplo deixa claro essa nossa noção geral – e inicialmente grosseira – sobre o que é a filosofia.
Imagine um filósofo em uma clínica médica. Ele entra ali para perguntar ao médico sobre sintomas ruins que está sofrendo e, no meio da conversa, isto é, no decorrer da consulta, ele pode começar um bate-papo e perguntar ao médico o que ele pensa sobre um possível fim de determinadas doenças. Até aí, nada de diferente de qualquer outro paciente com alguma cultura. Mas o filósofo autêntico nunca deixa de ser filósofo. Então, enquanto ele está fazendo essas perguntas e a consulta está ocorrendo, ele já abandonou o médico como médico ou como cientista da medicina, e começa a averiguar o que é o mais banal e corriqueiro naquela atividade, ali dentro da clínica. Ele não faz isso intencionalmente. Querendo ou não, se ele é filósofo, a filosofia começa a agir e ele até esquece de suas dores; ele se pega observando o modo pelo qual o médico faz perguntas, ou seja, que tipo de inquérito ele faz. Sem se dar conta, ele já lançou olhares sobre os gestos do médico, sua roupa, sua forma de se dirigir ao paciente e à secretária, como organizou o seu consultório, que tipo de material tem na mesa, se colocou ou não diplomas na parede e como dispôs os seus livros e que tipo de livros estão ali. Aos poucos, a ciência médica brota ali na sala e usa da boca do médico para se apropriar do ambiente e vazar por todos os lados, agarrando o paciente. Ele, o filósofo que entrou ali como paciente, não consegue não notar como é o funcionamento daquilo que ninguém iria achar interessante de investigar, ou seja, o mais banal: o discurso médico, o que o médico fala nas entrelinhas que, às vezes, é o que está claro nas próprias linhas. O que é a ciência falando ali, na boca do médico e por meio daquela boca? Junto com essa pergunta, uma dezena de outras fervilham seu cérebro: que tipo de saber é aquele e qual espécie de poder reina ali? Como que o discurso médico e o discurso da ciência doutrinam os corpos? Qual a razão daquela roupa branca? Por que há uma mesa entre o médico e o paciente? Ao agir assim, o filósofo já está envolvido com a observação da linguagem médica, ele já está dando importância para o que ninguém dá importância exatamente por ser o mais banal, o corriqueiro. A consulta termina. Ele pega a receita e paga a secretária do médico. O médico chama outro paciente, e considera que a consulta anterior acabou e que tudo foi bem, que conversou com um paciente culto. Mas não foi só isso que ocorreu ali na clínica. Talvez ele, o médico, nunca venha a saber que dali saiu um filósofo, e que a filosofia, em um certo sentido, se efetivou naquele seu consultório. Ele jamais saberá que tudo ali que é o corriqueiro, o banal, perdeu a sua banalidade naqueles minutos que o paciente filósofo esteve ali, e que a filosofia reinou em seu local de trabalho, documentando tudo. Toda a banalidade desapareceu enquanto a filosofia lá esteve. Mais tarde, em seu gabinete, o filósofo pode retomar a cena e então aprimorar seu pensamento sobre a captura que fez do discurso do doutor e da prática médica. A própria ciência médica fica disposta, então, para a análise. Pode começar a escrever filosoficamente sobre tudo isso. Pois enquanto esteve no consultório como paciente e se deitou para ser examinado, estava ao mesmo tempo examinando a própria medicina – talvez a única realmente doente ali na clínica (ou não?).
Haveria outro modo do filósofo atuar, nas mesmas condições? Sim! Caso o médico não fosse alguém imerso em seu mundinho, e aceitasse pensar filosoficamente com o filósofo, poderia, no momento da consulta, ser examinado pelo filósofo. Tudo aquilo que o filósofo, em silêncio, observou sobre o discurso e a prática do médico, poderia ser motivo para um diálogo de tipo socrático entre ambos. Escrever, então, seria uma opção (a mais) do filósofo. Mas uma primeira parte do trabalho já estaria feita. A filosofia teria ocorrido ali, como uma forma também de ampliar a consciência do médico a respeito daquilo que jamais havia pensado sobre seu discurso médico. E certamente isso muniria o filósofo de uma visão ainda mais acurada a respeito das hipóteses que levantou sobre o que até então era o mais banal de tudo, o discurso médico. É claro que essa segunda situação é mais difícil hoje em dia. Mas pessoas filosoficamente curiosas e intelectual e moralmente corajosas concordariam em passar por experiências desse tipo. Poucas se dariam esse presente, o de se entregar à ingenuidade filosófica. Todavia, não duvido que elas ainda existam, escondidas aqui e ali.
Nos dois casos – filosofando às escondidas ou filosofando em diálogo socrático –, a diferença entre o filósofo e seus outros dois colegas preocupados com assuntos gerais, é fácil de ver: o teólogo e o cientista respondem a questões que “realmente importam”, enquanto que o filósofo parece responder a perguntas que não importam. É claro que aqueles que forem ganhos por ele, e então enxergarem o banal como não mais banal, irão se importar daí em diante com aquilo que não importava. Todavia, há uma sutileza na forma como o que é corriqueiro e banal ganha importância na filosofia. E é nisso que a filosofia difere de todas as outras atividades intelectuais. É o modo pelo qual o banal se desbanaliza que marca a filosofia. O banal desbanalizado pela filosofia não pode nunca mais voltar à condição de banal. A filosofia, na sua ingenuidade de olhar o corriqueiro, parece lançar o objeto olhado para uma condição acima daquela observada pelos não-ingênuos. Todavia, quando esse mesmo objeto, uma vez desbanalizado pela filosofia, é tocado pela ciência e pela teologia, ele readquire a condição de banal. Pois a ciência e a teologia recolocam as coisas no lugar. Elas são conservadoras por natureza, mesmo quando parecem revolucionárias. Elas reordenam tudo para que tudo ganhe uma utilidade comum. Para explicar isso, nada melhor do que duas tiras da Mafalda, do cartunista argentino Quino.
Mafalda age como uma criança curiosa. Portanto, não raro, como filósofa. Todavia, se mantém como criança – sem perder a ingenuidade, a condição do filosofar. Ela adora fazer perguntas sobre coisas banais; isto é, coisas e situações que são vistas como aquilo a respeito do que não devemos nos preocupar, pois, como muitas pessoas comentam “desde que o mundo é mundo é assim mesmo”. Todavia, o filósofo é aquele que não se deixa levar facilmente pelo convite à passividade por uma frase do tipo “ah, é assim mesmo”. O filósofo é aquele que ouve o “é assim mesmo” e, em seguida, já começa a pensar que talvez seja o caso de perguntar “deve ser assim mesmo, deve?”.

Figura i.1
Na conversa com a sua mãe (fig. i.1), Mafalda pergunta sobre a pobreza. Por que existem os pobres? – é o que Mafalda quer saber. A mãe engasga. Talvez ela, a mãe, nunca tenha pensado seriamente no assunto. Talvez ela não queira pensar. Pode ser que tenha pensado, mas nunca tenha imaginado seriamente que há o que gera a pobreza. Ou ela – quem sabe? – nem sequer sonhe com um mundo sem pobres; e, então, se assim é, para ela a idéia da pobreza não é compatível com a pergunta de Mafalda. Parece esquisito querer encontrar causas e/ou razões para a pobreza, uma vez que a pobreza é algo “que está aí”. Como diriam alguns: pergunta de criança. Ou como diriam outros: pergunta de maluco. Ou ainda outros: pergunta de filósofo. Mas Mafalda não vê o engasgar da mãe e as reticências como uma situação de alguém que não tem resposta ou que estranha ter que encontrar uma resposta. Ao contrário, ela acredita que há uma resposta para a sua pergunta. Ela se prepara para uma resposta. O engasgar da mãe é motivo para ela achar que o adulto está se preparando para uma grande resposta. “Eu não suspeitava que a minha pergunta fosse tão interessante” – é o que Mafalda diz. O pigarrear e a entonação da mãe dão o fio da meada para Mafalda: o que se imaginava banal não é banal!
Eis uma nova situação a respeito dos pobres, em um passeio de Mafalda e Susanita.
Eis uma nova situação a respeito dos pobres, em um passeio de Mafalda e Susanita.
Figura i.2
O passeio de Mafalda com Susanita, sua amiga (fig. 2), mostra outra situação de tratamento do banal. Se os pobres causam dor na alma de Mafalda, para Susanita isso teria uma solução fácil: bastaria que os pobres fossem retirados das ruas. Não deveriam ser retirados como pessoas que poderiam ter algo a fazer, algo no que trabalhar, de modo a não serem tão pobres; deveriam apenas ser retirados, tais como objetos – aquilo que não teria de ser posto sob a vista de quem está ali para simplesmente passear. O mundo de Susanita não é um mundo de pessoas, é um mundo onde tudo que ela vê tem o aspecto de vitrine de loja. Tudo está ali para ser bonito ou feio, de modo que possamos escolher. Os pobres, ali mostrados, são feios. Quem levaria aquele tipo de mercadoria para casa? Ninguém. Então, estão apenas estragando a “vitrine da cidade”, estão causando dano na paisagem.
A dor na alma de Mafalda é um sentimento que o banal lhe provoca, um sentimento que Susanita não tem, ao menos não do modo que Mafalda o tem. Pois para Susanita o banal – a pobreza – é de fato banal. A curiosidade de Mafalda pela origem da pobreza é a maneira pela qual ela já está sendo despertada diante do banal. O banal está começando a deixar de ser banal para Mafalda. Ela não se conforma que não existam as causas da pobreza. Ela não aceita que não existam razões, ou, mais acertadamente, boas razões para a pobreza existir, uma vez que, na sua cabeça, há razões de sobra para a pobreza não existir.
O que é banal – ou quase – para sua mãe, e também para Susanita (ainda que de modo diferente), já não é banal para Mafalda. Ela está estranhando que algumas pessoas tenham de existir como pobres. Ela está admirada com essa situação em que a pobreza tenha de estar aí diante de outros que não são pobres e diante de um mundo que parece ter condições de não ter pobres. (Não é mesmo? Estamos errados caso acreditemos que um mundo como este nosso, com tanta possibilidade de gerar riquezas, não teria condições de não ter pobreza?). Então, o banal – a existência dos pobres – começa a se des-banalizar para ela. Eis que Mafalda começa a filosofar. A pergunta tipicamente filosófica é aquela que se dirige ao banal exatamente para torná-lo algo não mais banal. O que Mafalda faz na desbanalização? Ela admira e estranha. Sim, a filosofia, desde sua origem na Grécia antiga, começa pela admiração e pelo estranhamento do mundo. Platão e Aristóteles tomaram o começo do filosofar segundo tal “estranhamento com o mundo”.
Mas, perguntar por causas e razões do que é visto naquilo que é estranhado é o que marca a atuação diferenciada do filósofo? Não só. O cientista e o teólogo podem perguntar por causas da pobreza. Aqui é que a filosofia realmente se diferencia da ciência, da teologia e de outros campos doutrinários e/ou investigativos. É que causas e razões, para o filósofo, estão atrelados a uma visão que não se desgarra da ingenuidade; pois ele pergunta por causas e razões em associação à visão de que tudo poderia ser de outro modo.
Caso fosse cientista, Mafalda talvez perguntasse pelas causas da pobreza, mas dificilmente colocaria no horizonte de sua reflexão a idéia de um mundo sem qualquer pobreza. O cientista pode pensar em um mundo com menos pobreza, mas não em um mundo sem pobreza. Mafalda atua como filósofa: ao ver os pobres, ela já pensa em alternativas para a pobreza não existir de uma vez: ela crê que é mais racional um mundo onde a pobreza não exista, uma vez que ela mesma tem várias idéias para que os pobres não sejam pobres (que criança que não tem?). Caso fosse religiosa, Mafalda poderia ter pena dos pobres, mas não deveria lhe ocorrer em encontrar causas humanas para a pobreza ou alternativas para tornar o mundo mais racional e, então, um mundo sem pobres. Ela procuraria ajudar os pobres, considerando que eles sempre existiriam. Afinal, Deus fez e comanda o mundo, não? Mas Mafalda atua como filósofa: usa o verbo “haveria de” para indicar uma atitude, uma direção em favor de uma situação que é própria da filosofia: ver o que está estabelecido ser questionado, se des-estabelecer, para que disso possa surgir o novo.
Isso que o filósofo faz e que ele acredita que é o melhor uso da razão, para a maioria das pessoas é algo muito esquisito. Por isso mesmo, não raro, não são poucos os que tendem a ver o filósofo como alguém que “não vive nesse mundo”, que “fala coisas estranhas”. Alguns até querem ser idiossincráticos para se parecer com filósofos, principalmente quando, em algum lugar, “ser filósofo” se torna uma moda. Mas o filósofo não é idiossincrático. O bom e verdadeiro filósofo não tem nada de idiossincrático e nem faz pose. Nem se coloca distante dos outros – quem age assim, acredite, não é filósofo, é apenas um pedante que se imagina inteligente ou quer se fazer passar por tal. Ele, o filósofo, pode parecer esquisito para muitas pessoas, mas não por se afastar delas e tratá-las como inferiores. Ele parece esquisito, pois, sabe-se lá qual o motivo inicial, ele tem olhos e ouvidos para o que a maioria acha que “é assim mesmo”. Tudo já começa esquisito por conta da desbanalização do banal, e tudo fica mais estranho ainda, quando o que é desbanalizado se torna um problema – para o qual o filósofo quer soluções. Esse desejo de realização e de transformação sempre foi próprio da filosofia, mesmo quando esta advogou a contemplação e a não intervenção no mundo. Tudo isso é a utilidade da filosofia.
Utilidade? Sim, isso mesmo. A utilidade da filosofia é diferente da utilidade comum. Aristóteles (384-322 a.C.) disse que a filosofa nasce do ócio, necessário à reflexão, mas ele jamais disse que ela é inútil. A filosofia não é inimiga da utilidade. Ela é útil por tudo isso que foi dito acima. Podemos dizer que é inútil ter uma Mafalda andando por aí? É bem incômodo ter uma Mafalda andando por aí. Incômodo, é claro, para os que querem viver de olhos fechados ou, então, de olhos muito abertos – abertos demais a ponto de verem o corriqueiro como corriqueiro. Ora, o que é incômodo não é inútil, pois faz diferença – faz uma boa diferença.
Podemos, agora, melhorar nossa compreensão de o que é a filosofia. Dois filósofos estadunidenses apresentam as características que precisamos encontrar no filosofar para que efetivamente esse verbo honre sua tradição. Sobre o filosofar, Donald Davidson (1917-2003) diz algo simples, mas completamente verdadeiro: filosofar é manter sempre a mente aberta. Isto é, o filósofo difere de todos os outros “pensadores” e, então, é filósofo autêntico, se não se fecha em dogmas, se permite que até as soluções mais imaginativas sejam propostas e que até as perguntas que inicialmente não fazem sentido sejam colocadas. Ele está pronto para ver suas verdades serem solapadas e, tenha lá quantos anos tiver, recomeça a pensar sobre os problemas que imaginava já terem respostas ou começa a formular novas perguntas, pois acha que as anteriores não têm mais a ver com o que o cerca. Só desbanaliza o banal quem mantém a mente aberta. Os de mente fechada apenas rebanalizam tudo. De um modo mais técnico, Arthur C. Danto diz que o filosofar trabalha com problemas caracteristicamente filosóficos, e não quaisquer problemas. Ou seja, os temas da filosofia e podem ser muitos, mas o tipo de problema é delimitado. Segundo ele “um problema não é genuinamente filosófico a menos que seja possível imaginar que sua solução consistirá em mostrar como a aparência tem sido tomada pela realidade”.[1] É uma forma bem restrita e técnica de ver a filosofia, mas, em determinado nível, pode-se concordar com ela.
Olhar o banal e desbanalizá-lo, então, tem a ver com duas atitudes: primeiro, a atitude de manter a mente aberta; segundo, a atitude de perscrutar em que medida se está tomando o aparente pelo real. É claro que isso envolve muito mais. Podemos perguntar, de fato, o que é manter a mente aberta. Podemos perguntar o que é o real e o que é o aparente e, enfim, se de fato há essa possibilidade de tomarmos o aparente pelo real de modo tão acentuado, assim, como diz a filosofia. Mas desenvolver essas questões já é abraçar a filosofia. É comprometer-se com o que o filósofo estadunidense Richard Rorty chama de filosofia: uma conversação especial e interminável, um tipo de literatura específica que foi inaugurada por Platão. O leitor está convidado a se envolver com isso. Essa aventura não é para qualquer um. Por isso mesmo, convidamos o leitor para participar dela. Está convidado para adentrar a casa de Platão.
[1] Danto, A. C. Connections to the world. Berkeley: University of California Press, 1997, p.6.
O passeio de Mafalda com Susanita, sua amiga (fig. 2), mostra outra situação de tratamento do banal. Se os pobres causam dor na alma de Mafalda, para Susanita isso teria uma solução fácil: bastaria que os pobres fossem retirados das ruas. Não deveriam ser retirados como pessoas que poderiam ter algo a fazer, algo no que trabalhar, de modo a não serem tão pobres; deveriam apenas ser retirados, tais como objetos – aquilo que não teria de ser posto sob a vista de quem está ali para simplesmente passear. O mundo de Susanita não é um mundo de pessoas, é um mundo onde tudo que ela vê tem o aspecto de vitrine de loja. Tudo está ali para ser bonito ou feio, de modo que possamos escolher. Os pobres, ali mostrados, são feios. Quem levaria aquele tipo de mercadoria para casa? Ninguém. Então, estão apenas estragando a “vitrine da cidade”, estão causando dano na paisagem.
A dor na alma de Mafalda é um sentimento que o banal lhe provoca, um sentimento que Susanita não tem, ao menos não do modo que Mafalda o tem. Pois para Susanita o banal – a pobreza – é de fato banal. A curiosidade de Mafalda pela origem da pobreza é a maneira pela qual ela já está sendo despertada diante do banal. O banal está começando a deixar de ser banal para Mafalda. Ela não se conforma que não existam as causas da pobreza. Ela não aceita que não existam razões, ou, mais acertadamente, boas razões para a pobreza existir, uma vez que, na sua cabeça, há razões de sobra para a pobreza não existir.
O que é banal – ou quase – para sua mãe, e também para Susanita (ainda que de modo diferente), já não é banal para Mafalda. Ela está estranhando que algumas pessoas tenham de existir como pobres. Ela está admirada com essa situação em que a pobreza tenha de estar aí diante de outros que não são pobres e diante de um mundo que parece ter condições de não ter pobres. (Não é mesmo? Estamos errados caso acreditemos que um mundo como este nosso, com tanta possibilidade de gerar riquezas, não teria condições de não ter pobreza?). Então, o banal – a existência dos pobres – começa a se des-banalizar para ela. Eis que Mafalda começa a filosofar. A pergunta tipicamente filosófica é aquela que se dirige ao banal exatamente para torná-lo algo não mais banal. O que Mafalda faz na desbanalização? Ela admira e estranha. Sim, a filosofia, desde sua origem na Grécia antiga, começa pela admiração e pelo estranhamento do mundo. Platão e Aristóteles tomaram o começo do filosofar segundo tal “estranhamento com o mundo”.
Mas, perguntar por causas e razões do que é visto naquilo que é estranhado é o que marca a atuação diferenciada do filósofo? Não só. O cientista e o teólogo podem perguntar por causas da pobreza. Aqui é que a filosofia realmente se diferencia da ciência, da teologia e de outros campos doutrinários e/ou investigativos. É que causas e razões, para o filósofo, estão atrelados a uma visão que não se desgarra da ingenuidade; pois ele pergunta por causas e razões em associação à visão de que tudo poderia ser de outro modo.
Caso fosse cientista, Mafalda talvez perguntasse pelas causas da pobreza, mas dificilmente colocaria no horizonte de sua reflexão a idéia de um mundo sem qualquer pobreza. O cientista pode pensar em um mundo com menos pobreza, mas não em um mundo sem pobreza. Mafalda atua como filósofa: ao ver os pobres, ela já pensa em alternativas para a pobreza não existir de uma vez: ela crê que é mais racional um mundo onde a pobreza não exista, uma vez que ela mesma tem várias idéias para que os pobres não sejam pobres (que criança que não tem?). Caso fosse religiosa, Mafalda poderia ter pena dos pobres, mas não deveria lhe ocorrer em encontrar causas humanas para a pobreza ou alternativas para tornar o mundo mais racional e, então, um mundo sem pobres. Ela procuraria ajudar os pobres, considerando que eles sempre existiriam. Afinal, Deus fez e comanda o mundo, não? Mas Mafalda atua como filósofa: usa o verbo “haveria de” para indicar uma atitude, uma direção em favor de uma situação que é própria da filosofia: ver o que está estabelecido ser questionado, se des-estabelecer, para que disso possa surgir o novo.
Isso que o filósofo faz e que ele acredita que é o melhor uso da razão, para a maioria das pessoas é algo muito esquisito. Por isso mesmo, não raro, não são poucos os que tendem a ver o filósofo como alguém que “não vive nesse mundo”, que “fala coisas estranhas”. Alguns até querem ser idiossincráticos para se parecer com filósofos, principalmente quando, em algum lugar, “ser filósofo” se torna uma moda. Mas o filósofo não é idiossincrático. O bom e verdadeiro filósofo não tem nada de idiossincrático e nem faz pose. Nem se coloca distante dos outros – quem age assim, acredite, não é filósofo, é apenas um pedante que se imagina inteligente ou quer se fazer passar por tal. Ele, o filósofo, pode parecer esquisito para muitas pessoas, mas não por se afastar delas e tratá-las como inferiores. Ele parece esquisito, pois, sabe-se lá qual o motivo inicial, ele tem olhos e ouvidos para o que a maioria acha que “é assim mesmo”. Tudo já começa esquisito por conta da desbanalização do banal, e tudo fica mais estranho ainda, quando o que é desbanalizado se torna um problema – para o qual o filósofo quer soluções. Esse desejo de realização e de transformação sempre foi próprio da filosofia, mesmo quando esta advogou a contemplação e a não intervenção no mundo. Tudo isso é a utilidade da filosofia.
Utilidade? Sim, isso mesmo. A utilidade da filosofia é diferente da utilidade comum. Aristóteles (384-322 a.C.) disse que a filosofa nasce do ócio, necessário à reflexão, mas ele jamais disse que ela é inútil. A filosofia não é inimiga da utilidade. Ela é útil por tudo isso que foi dito acima. Podemos dizer que é inútil ter uma Mafalda andando por aí? É bem incômodo ter uma Mafalda andando por aí. Incômodo, é claro, para os que querem viver de olhos fechados ou, então, de olhos muito abertos – abertos demais a ponto de verem o corriqueiro como corriqueiro. Ora, o que é incômodo não é inútil, pois faz diferença – faz uma boa diferença.
Podemos, agora, melhorar nossa compreensão de o que é a filosofia. Dois filósofos estadunidenses apresentam as características que precisamos encontrar no filosofar para que efetivamente esse verbo honre sua tradição. Sobre o filosofar, Donald Davidson (1917-2003) diz algo simples, mas completamente verdadeiro: filosofar é manter sempre a mente aberta. Isto é, o filósofo difere de todos os outros “pensadores” e, então, é filósofo autêntico, se não se fecha em dogmas, se permite que até as soluções mais imaginativas sejam propostas e que até as perguntas que inicialmente não fazem sentido sejam colocadas. Ele está pronto para ver suas verdades serem solapadas e, tenha lá quantos anos tiver, recomeça a pensar sobre os problemas que imaginava já terem respostas ou começa a formular novas perguntas, pois acha que as anteriores não têm mais a ver com o que o cerca. Só desbanaliza o banal quem mantém a mente aberta. Os de mente fechada apenas rebanalizam tudo. De um modo mais técnico, Arthur C. Danto diz que o filosofar trabalha com problemas caracteristicamente filosóficos, e não quaisquer problemas. Ou seja, os temas da filosofia e podem ser muitos, mas o tipo de problema é delimitado. Segundo ele “um problema não é genuinamente filosófico a menos que seja possível imaginar que sua solução consistirá em mostrar como a aparência tem sido tomada pela realidade”.[1] É uma forma bem restrita e técnica de ver a filosofia, mas, em determinado nível, pode-se concordar com ela.
Olhar o banal e desbanalizá-lo, então, tem a ver com duas atitudes: primeiro, a atitude de manter a mente aberta; segundo, a atitude de perscrutar em que medida se está tomando o aparente pelo real. É claro que isso envolve muito mais. Podemos perguntar, de fato, o que é manter a mente aberta. Podemos perguntar o que é o real e o que é o aparente e, enfim, se de fato há essa possibilidade de tomarmos o aparente pelo real de modo tão acentuado, assim, como diz a filosofia. Mas desenvolver essas questões já é abraçar a filosofia. É comprometer-se com o que o filósofo estadunidense Richard Rorty chama de filosofia: uma conversação especial e interminável, um tipo de literatura específica que foi inaugurada por Platão. O leitor está convidado a se envolver com isso. Essa aventura não é para qualquer um. Por isso mesmo, convidamos o leitor para participar dela. Está convidado para adentrar a casa de Platão.
[1] Danto, A. C. Connections to the world. Berkeley: University of California Press, 1997, p.6.
Aula 1: Parte 1 e Parte 2: comentários e apoio por vídeo:
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